Bússola do Consumidor
Os direitos do consumidor traduzidos para quem cria produtos digitais: 31 itens em sete heurísticas, cada um com o que a lei pede, um exemplo e uma visão para cada perfil da equipe.
As heurísticas vêm da pesquisa Da Costa Nunes (2022), IHC (abre em nova aba), que traduz os princípios do direito do consumidor para a Interação Humano-Computador. As recomendações sobre informação vêm de decisões do Superior Tribunal de Justiça analisadas em Da Costa Nunes e Monteiro (2024), IHC (abre em nova aba).
Heurística 1 · Vulnerabilidade do consumidor
O usuário é a parte mais frágil da relação
Numa relação mediada por computador, quem usa sabe menos sobre o sistema e tem menos poder econômico e técnico do que quem o oferece. O produto precisa partir dessa desigualdade.
- 1.1
Não se aproveitar da fragilidade da pessoa
O sistema não pode tirar proveito da situação mais frágil de alguém, como a idade avançada ou o pouco conhecimento de tecnologia, para empurrar uma compra ou uma decisão.
- 1.2
Projetar pensando em quem pode ser mais prejudicado
Os riscos do produto precisam ser avaliados a partir de quem pode sofrer mais com ele, mesmo que essas pessoas sejam minoria entre as que usam.
Heurística 2 · Defesa do consumidor pelo Estado e acesso à Justiça
A defesa do usuário deve ser incentivada fora do sistema
Nem todo problema se resolve dentro do próprio sistema. A pessoa precisa conseguir falar com a empresa e recorrer a quem a defende, sem obstáculos.
- 2.1
Mostrar quem é o fornecedor
No comércio eletrônico, a pessoa precisa encontrar com facilidade a identificação da empresa, com CNPJ ou CPF, e os endereços para contato.
- 2.2
Atendimento que confirma e responde
O fornecedor mantém um atendimento eletrônico que confirma na hora o recebimento de cada reclamação ou pedido e responde em até cinco dias.
- 2.3
Arrependimento pelo mesmo caminho da compra
Quem compra pela internet pode desistir em até sete dias, e o fornecedor precisa informar como fazer isso, permitindo o arrependimento pela mesma ferramenta usada na contratação.
- 2.4
Indicar caminhos de defesa fora do sistema
Quando o problema não se resolve no próprio serviço, a pessoa deve saber que pode recorrer aos órgãos de defesa do consumidor, como o Procon e o consumidor.gov.br.
Heurística 3 · Segurança
A segurança deve ser sempre observada
O produto não pode expor a saúde nem os dados das pessoas a riscos que poderiam ser previstos e evitados.
- 3.1
Avisar sobre riscos de forma ostensiva
Se o uso do produto ou serviço pode trazer risco à saúde ou à segurança, o fornecedor avisa disso de forma clara e em destaque, antes do uso.
- 3.2
Proteger os dados e o pagamento
O fornecedor usa mecanismos de segurança eficazes para o pagamento e para o tratamento dos dados de quem compra.
- 3.3
Prever o mau uso do produto
O fornecedor deve pensar em como o produto pode ser usado para causar dano e criar proteções desde o lançamento, e não só depois que o dano acontece.
Heurística 4 · Boa-fé e lealdade nas relações
As interações devem ser permeadas de lealdade e boa-fé
A relação precisa ser honesta de fato, e não só na letra dos termos. Truques que tiram vantagem da pessoa ferem a boa-fé mesmo quando parecem legais.
- 4.1
Sem padrões enganosos
A interface não usa truques para levar a pessoa a fazer o que não queria, como contagem regressiva falsa ou botão de recusa que envergonha quem o escolhe.
- 4.2
Não condicionar a compra a outra
A compra de um produto não pode ficar condicionada à de outro, e itens extras, como seguros, não vêm incluídos sem que a pessoa escolha.
- 4.3
Não enviar nem cobrar o que não foi pedido
Produto ou serviço entregue sem pedido da pessoa equivale a amostra grátis: não pode ser cobrado.
- 4.4
Termos que a pessoa consiga ler e entender
Os termos de uso e os contratos precisam ser apresentados antes da contratação, em linguagem clara e letra legível, com as cláusulas que limitam direitos em destaque.
- 4.5
Cancelar tão fácil quanto contratar
O caminho para cancelar um serviço não pode ser mais difícil que o de contratar, com etapas escondidas ou insistência para a pessoa desistir de cancelar.
Heurística 5 · Informação
Todas as informações necessárias devem estar explícitas
A pessoa tem o direito de saber o que está contratando e o que pode esperar. As recomendações desta seção vêm de decisões do Superior Tribunal de Justiça sobre o direito à informação.
- 5.1
Informação correta, clara, precisa e ostensiva
Toda informação sobre o produto ou serviço é verdadeira, fácil de entender, sem excesso nem falta, fácil de perceber e em língua portuguesa.
- 5.2
Informar se está disponível agora
O sistema informa a situação atual do produto ou serviço, como estoque ou prazo, e não continua anunciando o que já sabe que não pode entregar.
- 5.3
Informação acessível
A informação precisa chegar a todas as pessoas, inclusive às pessoas com deficiência, num formato que elas consigam usar.
- 5.4
Restrições e exceções em destaque
As restrições e as exceções de uma oferta aparecem com destaque na interface, e não em letra miúda que ninguém percebe.
- 5.5
Silêncio não é sim
O sistema não pode tomar a falta de resposta da pessoa como concordância. Para o que pode causar dano, precisa de confirmação expressa, salvo nos casos previstos em lei.
- 5.6
Propaganda identificada como propaganda
A publicidade precisa ser reconhecida como publicidade de imediato e sem esforço, e não se misturar a conteúdos que parecem informativos.
- 5.7
Informar sobre a compra e sobre o uso
As informações tratam tanto do que se compra quanto de como o produto ou serviço funciona e do que se pode esperar dele.
- 5.8
Cada informação faz sentido sozinha
Cada peça de informação é avaliada por si: a pessoa não pode precisar juntar pistas espalhadas pelo sistema para entender uma oferta.
- 5.9
O que o robô diz vincula a empresa
Informações e promessas feitas por robôs de atendimento e assistentes automáticos obrigam o fornecedor a cumpri-las, como qualquer oferta.
- 5.10
Preço explícito
O preço do produto ou serviço aparece de forma clara, junto dele, antes de qualquer etapa de compra.
- 5.11
Preço à vista informado
Mesmo quando a oferta destaca o parcelamento, o preço à vista aparece de forma ostensiva, e não só o valor da parcela.
Heurística 6 · Reparação efetiva de danos
Os danos causados pela interação precisam ser reparados
Mesmo com cuidado, falhas acontecem. Quando causam dano, a reparação precisa ser simples de pedir e efetiva.
- 6.1
Caminho simples para pedir reparação
Quando algo dá errado, a pessoa encontra um caminho simples para pedir a reparação, sem barreiras técnicas nem burocráticas.
- 6.2
Comprovante e contrato à mão
O fornecedor confirma na hora a contratação e deixa o contrato disponível num formato que a pessoa possa guardar e consultar depois.
- 6.3
Responder pelas falhas do serviço
O fornecedor responde pelos danos causados por falhas do serviço e por informações insuficientes, mesmo sem culpa, e, salvo engano justificável, devolve em dobro o que cobrou indevidamente e foi pago.
Heurística 7 · Consumo sustentável
A interação precisa ser sustentável
O produto faz parte da vida em comunidade. Ele não pode incentivar consumo ou endividamento prejudiciais, nem causar dano a quem está em volta.
- 7.1
Não empurrar consumo nem crédito
A interface não assedia nem pressiona a pessoa a contratar produtos ou crédito, sobretudo quem está em situação de vulnerabilidade agravada, e não esconde os riscos do crédito.
- 7.2
Publicidade que não explora medo nem desrespeita o ambiente
A publicidade do produto não explora o medo nem a falta de experiência das pessoas, e respeita os valores ambientais.
- 7.3
Pensar no efeito sobre quem não usa
Os danos de um produto podem atingir quem nem o usa, e essas pessoas também são protegidas como consumidoras. O produto precisa ser pensado para não prejudicar a coletividade.