Todo serviço público conversa com as pessoas
Cada ponto de contato é uma mensagem do Estado para a pessoa: a página do serviço, a carta que chega em casa, o SMS de confirmação, o atendente do balcão. Quando a mensagem não chega, chega errada ou promete o que o serviço não cumpre, quem paga é quem mais depende dele.
- Burocratês: “Deferido”, “NIS”, “comparecer munido de”. Quem não entende o termo acha que o problema é com ela.
- Aviso que parece golpe: SMS sem remetente, link encurtado, e-mail com assunto genérico.
- Canais que se contradizem: o site diz uma coisa, a carta outra e o atendente uma terceira.
- Falso fim: “solicitação registrada” não é “pedido aceito”. Quem acredita que acabou perde o prazo sem saber.
Duas tradições juntas
Do design de serviços vem o blueprint de serviço, proposto por Lynn Shostack nos anos 1980. Ele desenha, lado a lado, o que a pessoa faz, por qual canal, o que o serviço mostra e o que acontece nos bastidores, dos dois lados da linha de visibilidade.
Da Engenharia Semiótica, abordagem da Interação Humano-Computador desenvolvida por Clarisse de Souza e colegas, vem a ideia de que todo sistema é uma mensagem de quem o projetou para quem o usa. O Método de Inspeção Semiótica examina essa mensagem por meio dos signos da interface, sem precisar de usuários.
O blueprint diz onde olhar; a inspeção diz o que procurar.
Como funciona
Abordagem
Escolha blueprint e inspeção juntos (o indicado), só o blueprint ou só a inspeção.
Serviço
Diga qual é o serviço, quem o usa e o que a pessoa quer resolver.
Mapa
Liste os pontos de contato em ordem: o que a pessoa faz, por qual canal, o que o serviço diz e o que acontece nos bastidores.
Inspeção
Em cada ponto, avalie o que o serviço explica, o que se vê e como ele responde.
Comparação
Registre onde os sinais de um ponto se desmentem e o que os pontos dizem de diferente.
Mensagem
Escreva, em primeira pessoa, o que o serviço diz a quem o usa.
Na inspeção, cada ponto de contato tem três tipos de sinal: metalinguísticos (o que o serviço explica sobre si, como ajudas e instruções), estáticos (o que está na tela ou no papel) e dinâmicos (o que acontece quando a pessoa age). Cada sinal recebe uma avaliação, de “comunica bem” a “não comunica”, com uma nota do que ele diz à pessoa. A cor do ponto é a da pior avaliação. Nas mudanças de canal, a pergunta é se a pessoa é avisada.
O que o serviço diz sem dizer
Somando todos os pontos de contato, o serviço passa uma mensagem sobre quem ele acha que a pessoa é. A inspeção termina reconstruindo essa metamensagem, como o serviço a diria.
Pelo que entendi, você é alguém com internet, e-mail que lê todo dia e tempo livre em horário comercial. Entendi que você quer tirar um documento. E acho que prefere fazer assim: sozinha, pelo site, confiando em avisos automáticos.
Quem não se reconhece nessa mensagem é quem o serviço deixa de fora. Mostrar isso em poucas linhas ajuda gestores a entender por que mudar.
O resultado
- O blueprint inteiro, com a cor de cada ponto de contato, que dá para baixar como imagem sem a rolagem lateral.
- Onde a mensagem não chega, as mudanças de canal sem aviso e as contradições entre canais.
- A metamensagem do serviço e um relatório para copiar ou imprimir.
Para medir o esforço que cada ponto cobra das pessoas, use também a Lupa do Esforço.
Perguntas frequentes
Preciso conhecer Engenharia Semiótica?
Não. Cada passo tem dicas, e o glossário do Mapa explica os termos.
E se o serviço já estiver mapeado?
Escolha a abordagem “só a inspeção”: o mapa vira uma lista de pontos de contato, só com nome, canal e mensagem. Dá para completar depois com a outra parte sem perder nada.
Referência
SHOSTACK, G. Lynn. Designing services that deliver. Harvard Business Review, v. 62, n. 1, p. 133–139, 1984.
Referência
DE SOUZA, Clarisse Sieckenius. The Semiotic Engineering of Human-Computer Interaction. Cambridge: MIT Press, 2005.
No glossário
Mapeie um serviço
Use o blueprint e a inspeção juntos, ou só um deles quando o tempo for curto.