Por que olhar para o processo
Um serviço feito sem as pessoas tende a repetir as suposições de quem o fez. O problema e o público são definidos em reunião, e as pessoas só aparecem, quando aparecem, para testar algo pronto. Às vezes outras pessoas falam por elas: família, suporte, gestão, a própria equipe. Às vezes as pessoas participam, dão opinião, e nada muda.
Numa revisão das pesquisas de acessibilidade do IHC entre 2016 e 2022, nenhuma teve pessoas com deficiência como co-pesquisadoras, e só 7,7% levaram os resultados de volta a quem participou. O Espelho existe para tornar esse retrato visível dentro de cada projeto.
Para trás e para o agora
O Espelho serve a dois momentos. Ao planejar, ajuda a decidir quem precisa participar, como, com quantas pessoas e com que cuidados. Ao olhar o que já aconteceu, mostra quem participou de cada etapa, com quanto poder de decisão, e o que fazer na próxima rodada.
Dá para planejar, conduzir a pesquisa e voltar com o mesmo arquivo: ao trocar o momento, o Espelho guarda o plano e compara o previsto com o que de fato aconteceu.
Papéis e degraus
A equipe descreve o que aconteceu com as próprias palavras, como “deram opinião e parte foi usada”. O Espelho traduz em duas classificações usadas na pesquisa sobre participação.
- Papel, de Morais et al., a partir de Druin: de usuário (só observado) a protagonista (conduz o processo), passando por testador, informante, parceiro de design e co-pesquisador.
- Nível de envolvimento, de Ives e Olson: do simbólico (ouvidas, sem efeito) ao forte controle (decidem o rumo).
O degrau mais alto que o público alcança em cada etapa forma a escada da participação, que lembra a escada da participação cidadã de Arnstein. O retrato geral segue a classificação de Damodaran: participação informativa, consultiva ou participativa. Não há nota: o resultado é uma matriz, em tabela, que dá para baixar como imagem.
O processo da sua equipe
As etapas vêm do processo que a equipe segue: ciclo de políticas públicas, serviço público, design de produtos, design centrado no humano (ISO 9241-210), desenvolvimento ágil ou pesquisa acadêmica. Dá para criar etapas próprias, como uma audiência pública.
Focos que você escolhe
- Pessoas que falaram por outras: quando proxies ocuparam o lugar de quem vai usar, por que, com que proximidade e em que sessões. A recomendação é ouvi-los em sessões separadas das pessoas usuárias.
- Cuidados com quem participou: consentimento acessível, direito de desistir, custos cobertos, privacidade e devolutiva.
- Amostra e rigor: o tamanho da amostra de um questionário, com a margem de erro e o aviso sobre amostras por conveniência, e referências por perfil para entrevistas, testes de usabilidade e grupos focais, todas com a fonte.
- O que mudou por causa das pessoas: ao olhar para trás, participação sem efeito conta como simbólica.
- Ética e comunicação da pesquisa (modo acadêmico): a triagem do Comitê de Ética em Pesquisa e a ficha de envolvimento de pessoas, pronta para o artigo.
A ficha de envolvimento de pessoas
No modo acadêmico, o resultado monta a ficha de envolvimento de pessoas proposta por Carvalho, Rodrigues, Santoro e Oliveira (IHC 2024): 17 itens, obrigatórios, recomendados e opcionais, que dizem num lugar só quem participou, quantas pessoas, como e com que cuidados éticos. Sai em lista ou em parágrafo, e o que falta aparece como lacuna, e não como erro.
Perguntas frequentes
É só para pesquisa acadêmica?
Não. A participação nas etapas, os proxies, os cuidados e a amostra servem a qualquer equipe. O modo acadêmico, com a parte de ética em pesquisa, vem desligado e só entra se você escolher.
O Espelho diz se o processo foi bom ou ruim?
Não. Ele mostra onde o processo ouviu as pessoas e onde decidiu por elas, com alertas e perguntas para a próxima rodada. Uma nota poderia legitimar a participação simbólica.
Posso continuar depois?
Sim. O trabalho fica no seu navegador, e o botão “Baixar arquivo” guarda tudo para abrir em outro computador ou passar para a equipe.
Referência
DA COSTA NUNES, Erik Henrique et al. Revisão sobre a participação de pessoas com deficiência nas pesquisas de acessibilidade do IHC. IHC 2024. doi.org/10.1145/3702038.3702098 (abre em nova aba)
Referência
CARVALHO, L. P.; RODRIGUES, K. R. H.; SANTORO, F. M.; OLIVEIRA, J. A study and pragmatic proposal on the communication of human involvement in Brazilian computing research. IHC 2024. doi.org/10.1145/3702038.3702089 (abre em nova aba)
Referência
ARNSTEIN, Sherry R. A ladder of citizen participation. Journal of the American Institute of Planners, v. 35, n. 4, p. 216–224, 1969.
Planeje ou avalie a participação
Carregue o exemplo de um aplicativo de agendamento de consultas para ver como fica.