O lugar errado no backlog
Na engenharia de software, acessibilidade costuma ser classificada como requisito não funcional, às vezes como um subitem de usabilidade. Na prática, isso a coloca na fila do "se der tempo". Pelo menos no Brasil, a indústria não vinha tratando acessibilidade como obrigatória.
Em 2023, eu e a Profa. Ingrid Teixeira Monteiro apresentamos no IHC, o Simpósio Brasileiro sobre Fatores Humanos em Sistemas Computacionais, um estudo que questiona essa classificação. Ele faz parte da mesma linha de pesquisa que deu origem ao Ramplifica.
O que muda com a NBR 17060
A pesquisa usou hermenêutica jurídica, o método de interpretação de leis, para responder três perguntas sobre a norma publicada em 2022:
- Quem precisa cumpri-la?
- A partir de quando?
- O quê, exatamente, precisa ser cumprido? A resposta curta são os 37 requisitos obrigatórios.
O argumento central passa pelo Código de Defesa do Consumidor. O CDC considera prática abusiva colocar no mercado produto ou serviço em desacordo com as normas técnicas da ABNT, quando não há norma oficial específica (art. 39, inciso VIII). Há decisões judiciais que reconhecem essa obrigatoriedade para outras normas da ABNT. Somando o CDC à NBR 17060, a acessibilidade de apps com fins comerciais deixa de ser boa prática e passa a ser obrigação.
Do jurídico para o backlog: user stories
Saber que algo é obrigatório não ajuda se o requisito não chega ao time. Por isso, o estudo propõe usar user stories para posicionar a acessibilidade como requisito de conformidade, com a mesma prioridade de qualquer outra exigência legal.
Um exemplo de como isso pode ficar no backlog, a partir do requisito de elementos interativos e de interface (5.1.1.4):
Como pessoa cega que usa leitor de tela, quero que todos os botões de ícone tenham um nome descritivo, para conseguir finalizar uma compra sem ajuda.
Critérios de aceite
O leitor de tela anuncia nome e função de cada botão.
Nenhum botão é lido apenas como "botão" ou pelo nome do arquivo.
A história deixa claro quem é afetado, o que precisa ser feito e como verificar. E, principalmente, entra no planejamento da sprint em vez de ficar no fim da fila. Na página de cada requisito, a visão do desenvolvedor mostra exemplos de código certo e errado que ajudam a escrever os critérios de aceite.
O que levar para o seu time
- Reclassifique: trate acessibilidade como requisito de conformidade, junto com LGPD e segurança.
- Escreva em histórias: cada requisito da norma pode virar uma ou mais user stories com critérios de aceite testáveis. A IA pode ajudar no rascunho, como mostramos em como usar IA para construir apps acessíveis.
- Inclua no Definition of Done: nenhuma entrega sem verificação de acessibilidade. O checklist personalizado ajuda a saber o que verificar em cada projeto.
Perguntas frequentes
A norma vale para apps sem fins comerciais?
O artigo foca nos apps com fins comerciais, que estão sob o CDC. Serviços públicos seguem ainda a Lei Brasileira de Inclusão e outras normas próprias.
Onde encontro os requisitos traduzidos para o meu papel?
No Ramplifica, que organiza os 37 requisitos obrigatórios da norma por perfil profissional.
Referência
DA COSTA NUNES, E. H.; MONTEIRO, I. T. Exploring the Accessibility Legal Landscape: Accessibility requirements in mobile applications according to ABNT NBR 17060. IHC 2023, Maceió. DOI 10.1145/3638067.3638121. Acessar o artigo pelo DOI (abre em nova aba)
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