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Ramplifica

Quem participa das pesquisas sobre acessibilidade no Brasil?

Revisamos as pesquisas sobre acessibilidade publicadas no IHC de 2016 a 2022. Elas cresceram, mas a pessoa com deficiência quase sempre aparece testando ou dando informações, e poucas registram os cuidados éticos que a lei pede.

Revisão sistemática

· 5 min de leitura

Por Erik Henrique da Costa Nunes

Os artigos desta história

  1. Digital Accessibility at the Brazilian Symposium on Human Factors in Computing Systems (IHC): An Updated Systematic Literature Review

    Erik Henrique Da Costa Nunes, Guilherme Vital Ribeiro, Ingrid Teixeira Monteiro e Enyo Gonçalves. IHC 2023, Maceió (ACM), 2023. Ler o artigo (abre em nova aba)

  2. Investigating Accessibility at the Brazilian Symposium on Human Factors in Computing Systems (IHC): A Systematic Review on Users Engagement and Ethical Considerations for Persons with Disabilities

    Erik Henrique da Costa Nunes, Pedro Victor de Sousa Silva, Ruan Gabriel Lopes e Souza e Ingrid Teixeira Monteiro. IHC 2024, Brasília (ACM), 2024. Ler o artigo (abre em nova aba)

Duas perguntas, dois artigos

Em 2023 e 2024, apresentamos no IHC, o Simpósio Brasileiro sobre Fatores Humanos em Sistemas Computacionais, dois artigos que olham para o próprio evento. O primeiro conta quantas pesquisas sobre acessibilidade o IHC publicou depois da Lei Brasileira de Inclusão, de 2015. O segundo relê essas mesmas pesquisas com outra pergunta: qual é o lugar da pessoa com deficiência nelas, e com quanto poder ela participa.

Os dois nasceram na mesma linha de pesquisa do mestrado que deu origem ao Ramplifica. E o segundo virou ferramenta: as escalas que ele usa estão no Espelho da Participação.

A acessibilidade ganhou espaço no IHC

O primeiro artigo atualizou uma revisão sistemática de 2016, que tinha olhado o evento de 1998 a 2015 e encontrado 12% dos trabalhos sobre acessibilidade. Lemos os 406 trabalhos publicados de 2016 a 2022 na biblioteca digital da ACM. Deles, 91 tratavam de acessibilidade: 22,4%, quase o dobro.

Que público as pesquisas tinham em mente

Base: 91 pesquisas sobre acessibilidade

  • Deficiência visual33 de 91 (36%)
  • Acessibilidade em geral17 de 91 (19%)
  • Deficiência auditiva12 de 91 (13%)
  • Autismo11 de 91 (12%)
  • Pessoas idosas11 de 91 (12%)
  • Outras condições7 de 91 (8%)

Outras condições: paralisia cerebral, mobilidade reduzida, deficiência cognitiva, deficiência na fala, ansiedade com computador, depressão e TDAH, uma pesquisa cada.

A deficiência visual liderou com folga. O celular também: 33 pesquisas tratavam só de aplicativos, quase o triplo das que tratavam só da web (12). Faz sentido num país em que a maior parte das pessoas chega à internet pelo celular.

O dado que mais nos surpreendeu foi outro. Só 21 das 91 pesquisas (23%) citam alguma lei, e a mais citada, a Lei Brasileira de Inclusão, aparece em 7. Citar a lei não torna uma pesquisa melhor, e muitas cumprem o que ela pede sem falar dela. Mas o número mostra que o lado jurídico da acessibilidade ainda circula pouco entre quem pesquisa o tema. Foi esse vazio que levou ao estudo sobre a NBR 17060 como requisito legal.

Mas quem participa?

O segundo artigo pegou as mesmas 91 pesquisas e perguntou o que a primeira revisão não perguntava: qual é o papel da pessoa com deficiência? Dois pesquisadores classificaram cada artigo sem ver a classificação do outro e concordaram em 85% dos casos. O restante foi discutido até haver consenso.

Usamos três escalas, as mesmas que hoje estão no Espelho da Participação:

  • Tipo de participação, de Damodaran: informativa, quando a pessoa só dá ou recebe informação; consultiva, quando opina sobre algo já definido; participativa, quando influencia decisões sobre o sistema todo.
  • Nível de envolvimento, de Ives e Olson: vai de nenhum envolvimento, passando por simbólico, consulta, fraco controle e atividade, até o forte controle, quando as pessoas comandam todas as fases.
  • Papel, de Morais e colegas: usuário, testador, informante, parceiro de design, co-pesquisador ou protagonista.

Das 91 pesquisas, 73 (80%) envolveram pessoas em algum momento. Quase todas de forma consultiva:

Tipo de participação

Base: 73 pesquisas que envolveram pessoas

  • Informativa2 de 73 (3%)
  • Consultiva60 de 73 (82%)
  • Participativa11 de 73 (15%)
Nível de envolvimento das pessoas com deficiência

Base: 73 pesquisas que envolveram pessoas

  • Nenhum envolvimento20 de 73 (27%)
  • Simbólico0 de 73 (0%)
  • Consulta42 de 73 (58%)
  • Fraco controle7 de 73 (10%)
  • Atividade4 de 73 (5%)
  • Forte controle0 de 73 (0%)

Em 20 dessas pesquisas, nenhuma pessoa com deficiência participou. No lugar delas estavam profissionais de IHC, intérpretes de Libras, terapeutas, parentes e, em um caso, modelos de inteligência artificial. Às vezes havia motivo: a pesquisa estava no começo, o método era uma inspeção feita por especialistas ou a pandemia impediu os encontros. Em outras, o artigo não explicava.

Papel da pessoa com deficiência

Base: 53 pesquisas com pessoas com deficiência

  • Usuário3 de 53 (6%)
  • Testador21 de 53 (40%)
  • Informante19 de 53 (36%)
  • Parceiro de design9 de 53 (17%)
  • Co-pesquisador0 de 53 (0%)
  • Protagonista1 de 53 (2%)

Em três de cada quatro pesquisas, a pessoa com deficiência testou um protótipo ou deu informações. Nenhuma a tratou como co-pesquisadora, analisando os dados da própria realidade, e só uma a tratou como protagonista.

Isso não quer dizer que essas pesquisas sejam ruins. Cada uma tem sua pergunta, e nem toda pergunta pede alto envolvimento. Mas, quando o assunto é acessibilidade, deixar a pessoa com deficiência só no papel de quem testa limita o que a pesquisa enxerga. É desse ponto cego que nascem as suposições e os estereótipos sobre o que essas pessoas precisam.

E a ética?

A Lei Brasileira de Inclusão é direta. O consentimento da pessoa com deficiência não depende do tema da pesquisa nem do número de participantes:

O consentimento prévio, livre e esclarecido da pessoa com deficiência é indispensável para a realização de tratamento, procedimento, hospitalização e pesquisa científica.
Lei nº 13.146/2015 (Lei Brasileira de Inclusão), art. 12
Cuidados éticos registrados no texto

Base: 73 pesquisas que envolveram pessoas

  • Passou por um Comitê de Ética em Pesquisa (CEP)13 de 73 (18%)
  • Usou termo de consentimento, com ou sem CEP36 de 73 (49%)
  • Mostrou os resultados às pessoas pesquisadas antes de publicar7 de 73 (10%)

Uma pesquisa pode aparecer em mais de uma linha. A revisão conta só o que está escrito nos artigos.

Menos de uma em cada cinco pesquisas registra ter passado por um CEP, e só metade menciona o termo de consentimento. Pode ser que mais pesquisas tenham seguido esses passos sem escrever, já que o evento não pedia esse registro. As chamadas de trabalhos mais recentes passaram a pedir.

Mostrar os resultados às pessoas antes de publicar não é obrigatório, e foi o cuidado mais raro: 7 de 73. É ele que deixa a comunidade conferir se o que foi escrito sobre ela faz sentido. Ele também devolve alguma coisa a quem cedeu seu tempo à pesquisa.

O que levamos para o Ramplifica

O Espelho da Participação é este segundo artigo virado ferramenta. Com as mesmas três escalas, a equipe olha o próprio processo: em cada etapa, quem participou, em que papel e com quanto poder de decisão. No modo acadêmico, ele pergunta também pelo CEP, pelo termo de consentimento e pela devolução dos resultados, os pontos que a revisão encontrou faltando.

A ferramenta serve para planejar, não só para avaliar. Antes de chamar as pessoas, a equipe vê se vai repetir o padrão que a revisão encontrou: todo mundo testando no fim e ninguém decidindo no começo.

No glossário

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Planeje quem chamar e com quanto poder de decisão, ou avalie o que já aconteceu, com as mesmas escalas destes artigos.

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