Uma unidade de saúde vai lançar um aplicativo para agendar consultas. Quem mais usa a unidade são pessoas idosas, muitas com baixa renda, algumas cegas ou surdas. A equipe tem pouco tempo e pensa em ouvir as filhas e os filhos que agendam pelos pais, a equipe do balcão e um grupo de estudantes com óculos que simulam baixa visão. Parece participação. Mas quem, nesse plano, vai de fato decidir alguma coisa?
O Espelho da Participação não dá nota ao projeto. Ele mostra onde o plano vai ouvir as pessoas e onde vai decidir por elas, enquanto ainda dá para mudar. Neste guia, mostro cada tela, o que responder e por que cada passo está ali. Para entender o método antes, leia Espelho da Participação: planejar e avaliar quem participa.
Antes de começar
- Quanto tempo
- Um plano com quatro ou cinco grupos leva de meia hora a uma hora. Cada foco a mais acrescenta um passo.
- O que ter em mãos
- O cronograma ou o processo que a equipe segue e a lista de quem a equipe pensa em chamar. Se o projeto já aconteceu, os registros de quem participou.
- Com quem
- Com quem coordena o projeto e com quem vai recrutar e conduzir as sessões. São essas pessoas que sabem o que é possível mudar.
- Onde fica salvo
- No seu navegador, e ninguém mais tem acesso. Para continuar em outro computador, baixe o arquivo no primeiro passo.
Passo 1 de 7
Escolher o momento e os focos
A primeira tela pergunta em que momento está o projeto e o que você quer olhar. Todas as perguntas seguintes mudam conforme essas duas escolhas.

- O momento. Planejar, para o projeto que vai começar, ou olhar o que já aconteceu. Dá para trocar depois sem perder as respostas.
- Participação nas etapas. É a base e sempre entra: quem participa de cada etapa, em que papel e com quanto poder de decisão.
- Os focos. Cada um acrescenta um passo e alertas próprios. Quem fala por outros e Cuidados servem para quase todo projeto.
- Ética e comunicação da pesquisa. Só para pesquisa acadêmica: pergunta sobre comitê de ética, consentimento e monta a ficha de envolvimento de pessoas para o artigo.
Passo 2 de 7
Contar qual é o projeto
Aqui você diz qual é o produto ou serviço e, principalmente, para quem ele é.

- Produto ou serviço, com o nome que a equipe usa. O período é opcional.
- Quem você espera que use, com as suas palavras: quem são, em que contexto usam, com que aparelho e com que apoio.
- Para quem é. Marque todos os públicos, inclusive os que não vão participar. É assim que o resultado mostra quem ficou de fora.
- Outro público. Quando falta alguém na lista, como pessoas migrantes que não falam português, escreva e adicione.
Assim
“Pessoas idosas, várias com baixa renda, algumas cegas ou surdas. Agendam pelo celular, muitas vezes com ajuda da família, ou ligando para a unidade.”
Assim não
“Cidadãos em geral.”
Passo 3 de 7
Cadastrar os grupos
Cada grupo é um conjunto de pessoas que vai participar de alguma etapa. O exemplo tem seis: pessoas idosas, pessoas cegas, filhas e filhos que agendam pelos pais, a equipe de atendimento, estudantes simulando baixa visão e a coordenação da unidade.

- Nome do grupo. Diga quem são, e não o método: “Filhas e filhos que agendam pelos pais”. O número previsto é opcional.
- A relação com o produto. Quem vai usar, quem usa junto, quem fala por quem vai usar, partes interessadas ou quem poderia usar e não usa.
- Por quem o grupo fala. Aparece só para quem fala por outras pessoas. As opções são os públicos que você marcou no passo 2.
- Proximidade. Convive no dia a dia, atende profissionalmente, conhece por dados ou não tem vínculo. É ela que diz o quanto a fala do grupo se aproxima da realidade.
Separe grupos diferentes, mesmo que participem juntos. Pessoas idosas e os filhos delas são dois grupos, porque falam de lugares diferentes.
Passo 4 de 7
Dizer quem participa de cada etapa
Primeiro, você escolhe o processo que o projeto segue. Depois, em cada etapa, diz quais grupos participam e como.

- O processo. Escolha o mais próximo do jeito que a equipe trabalha. Cada modelo diz de onde vêm os nomes das etapas.
- As etapas. Desmarque as que não vão acontecer, mesmo que a equipe use outros nomes para elas.
- Outra etapa. Crie as que faltarem, como uma audiência pública.
Abaixo da escolha, cada etapa ganha um quadro com os grupos.

- Marque o grupo que participa da etapa. Só os marcados ganham as duas perguntas.
- O que vão fazer. De ser observadas usando algo a conduzir o processo.
- O que vai acontecer com o que disserem. De ser ouvidas sem compromisso a decidir o rumo.
Assim
“Vão responder perguntas ou dar opinião”, quando a equipe ouve e decide depois.
Assim não
“Vão decidir o rumo”, quando a decisão continua com a coordenação.
Passo 5 de 7
Olhar quem fala por outras pessoas
Este passo aparece com o foco de quem fala por outros. Cada grupo que ocupa o lugar das pessoas usuárias ganha um quadro.

- Por que as pessoas usuárias não vão participar no lugar deste grupo. Falta de tempo, de acesso, de equipe, de dinheiro, distância, receio ético ou nenhum motivo.
- O conhecimento do grupo vai ser verificado? Sem conferir o que o grupo sabe das pessoas, não dá para saber o quanto confiar no que ele disser.
- Sessões separadas. Juntas, quem tem mais poder ou mais fluência tende a falar pela outra pessoa. Se a pessoa precisa de apoio para participar, o apoio fica, mas não responde por ela.
- Quando conferir com as pessoas usuárias. Escolha a etapa. Sem isso, o que o grupo disse fica como verdade.
No fim do passo, o quadro Atenção neste passo junta o que pede cuidado, como um grupo previsto na mesma sessão que as pessoas usuárias.
Passo 6 de 7
Combinar os cuidados
Este passo aparece com o foco de cuidados. São sete perguntas sobre o que a equipe vai garantir a quem participar.

- Consentimento. O consentimento prévio, livre e esclarecido da pessoa com deficiência é indispensável (Estatuto da Pessoa com Deficiência, art. 12).
- Formato acessível. Linguagem simples, Libras, leitura fácil ou áudio. Um termo que a pessoa não consegue entender não é consentimento esclarecido.
- Custos. Transporte, tempo e internet. Sem isso, participa só quem pode pagar para participar.
“Em parte” vale quando o cuidado existe só para alguns grupos ou em algumas etapas. Cada “Não” e “Em parte” vira um alerta no fim do passo.

- Atenção neste passo. Cada alerta repete a pergunta que o gerou, para você voltar e decidir o que muda.
Passo 7 de 7
Ler o espelho do processo
O resultado começa pelo tipo de participação do público. No exemplo, é consultiva: as pessoas que vão usar vão opinar ou testar, mas decidir pouco.

- Copiar, imprimir ou baixar. O relatório vai como texto. A matriz sai como imagem, para levar a uma apresentação.
- O tipo de participação. Informativa, consultiva ou participativa, conforme o degrau mais alto que o público alcança.
- O que ajustar antes de começar. Quando você planeja, os ajustes vêm primeiro: decisões sem as pessoas, públicos fora do plano, simulação de deficiência, cuidados que faltam.
Mais abaixo vêm a escada e a matriz.

- A escada. Em cada etapa, até que degrau as pessoas que vão usar sobem. O nome do degrau está escrito embaixo de cada coluna.
- A matriz. Cada linha é um grupo, cada coluna uma etapa. Na célula, o que o grupo faz e quanto decide. A última linha é o degrau do público.
Para ler sem se perder:
- Procure as etapas em que o público fica em “Nenhum”. No exemplo, a definição: o problema vai ser escolhido sem as pessoas que vão usar.
- Veja quem aparece na matriz só como proxy. Onde só a família ou o balcão falam, as necessidades são supostas.
- Leve os Cuidados para conduzir e o Roteiro de ponta a ponta para quem vai recrutar e conduzir as sessões.
Os passos dos outros focos
O exemplo usa dois focos. Os outros três acrescentam um passo cada:
- Amostra. Para questionário, você informa a margem de erro e o Espelho calcula quantas respostas e quantos convites são precisos. Para entrevistas, testes e grupos focais, mostra referências por perfil, com as fontes.
- Ética. Começa por uma triagem que diz se a pesquisa precisa passar pelo Comitê de Ética em Pesquisa, citando a Resolução CNS 510/2016. Os campos do fim montam a ficha de envolvimento de pessoas de Carvalho e colegas (IHC 2024).
- Evidências. Só quando você olha o que já aconteceu. Para cada grupo, diga o que mudou no produto por causa dele. Se nada mudou, a participação desse grupo passa a contar como simbólica.
E depois do resultado?
- Ajustar o plano. Volte aos passos e mude o que o resultado apontou. O resultado muda junto.
- Convidar. Para escrever um convite que as pessoas consigam ler e responder, use o Convite acessível.
- Comparar depois. Quando as etapas acontecerem, abra o mesmo arquivo, troque o momento para “Quero olhar o que já aconteceu” e compare com o que foi planejado.
Erros comuns
- Marcar só o público que vai participar. O passo 2 pede todos os públicos. É a diferença entre eles que mostra quem ficou de fora.
- Juntar grupos diferentes. Pessoas idosas e os filhos delas falam de lugares diferentes. Dois grupos.
- Responder o que a equipe gostaria. “Vão decidir o rumo” só vale se a decisão for mesmo delas.
- Tratar a simulação como validação. Óculos que embaçam a vista não reproduzem a vida de quem tem baixa visão. Servem, no máximo, para sensibilizar a equipe.
Quando o trabalho é em equipe
Hoje o Espelho da Participação funciona só no site gratuito, no navegador de quem preenche. Ele não está na área logada.
Para fazer em equipe, o caminho é preencher numa reunião, com a tela compartilhada, ou uma pessoa baixar o arquivo e passar para a próxima, que abre no primeiro passo e continua. Cada arquivo é uma cópia: se duas pessoas mexerem ao mesmo tempo, as respostas não se juntam sozinhas. Combine quem fica com o arquivo da vez.
Perguntas frequentes
Preciso fazer tudo de uma vez?
Não. A autoavaliação fica salva no navegador e você continua de onde parou. Para continuar em outro computador, baixe o arquivo e abra lá.
Serve para um projeto que já terminou?
Serve. Escolha “Quero olhar o que já aconteceu” no primeiro passo. As perguntas passam para o passado, e o foco de evidências pergunta o que mudou por causa de cada grupo.
O Espelho diz se a participação foi boa?
Não. Ele não dá nota, porque cada projeto tem limites próprios. Mostra onde as pessoas decidem e onde decidem por elas. O glossário explica os papéis e os níveis.
Um aplicativo para pessoas idosas que nenhuma pessoa idosa ajudou a definir vai ter a cara de quem o fez. O Espelho não resolve isso sozinho, mas deixa a escolha às claras: quem a equipe vai ouvir, quem vai decidir e quem ainda está de fora.
Planeje a participação com o Espelho
Carregue o exemplo do aplicativo de consultas para ver como fica, ou comece o plano do seu projeto.